A cornitude como performance
Na semana que os casais se desfizeram como castelos de areia vemos que ser corno é o novo chique. Finalmente uma moda gratuita e acessível.
Eu escrevi a coluna da semana passada falando da Luisa Sonza, seu fãs e um processo de ativismo que se espera do fã hoje em dia. Achei que tinha conseguido colocar tudo, mas postei de noite e em pleno café da manhã no dia seguinte, ao lado de um papagaio fantoche, Luisa adicionava uma nova camada ao grande reality show que confunde cada dia mais sua carreira e sua vida: Anunciar ao vivo e com bloco de notas no celular que foi corna. Deu nem 12h e Luisa tornou minha coluna datada. Essa é minha vingança.
Chico Moedas, que é uma espécie de galã das categorias de base, traiu a moça com quem viveu um relacionamento que se fosse CLT nem tinha passado do período de experiência ainda, o que não impediu de já terem cometido música sobre o casal, viagens para todos os festivais e programas de TV e que encontrou seu ápice veja só, no querido Galeto Sat’s. Um relacionamento que cita o Bar da Cachaça em sua música tema que roda o Brasil e encontra seu ápice no Galeto Sat’s tem como destino óbvio a reconciliação no Bar do Omar. Eu poderia dizer Bar do Nanam mas já estamos em 2023.
A gente sabe que a traição é um crime de menor potencial ofensivo - travar um banheiro de boteco por 40 minutos isso sim que deveria ser a pena capital - mas isso é o tipo de coisa não adianta dizer pro corno. Só o corno sabe como lhe aperta o calo da traição e por traição posso colocar um leque amplo de situações. Trair é, em resumo, você quebrar um acordo previamente estabelecido com a outra parte. Mas não, não é de bom tom você dizer que chifrou a Nubank quando deixa de pagar a fatura.
Tenho uma teoria sobre relacionamentos mono e não-mono (para facilitar nesse texto iremos resumir grosseiramente e considerar não-mono tudo aquilo que é diferente do mono que estamos tradicionalmente acostumados) e começa por dizer que não existem dois relacionamentos não-mono iguais. Cada casal, trisal, tetral etc estabelece seus acordos e limites e essas decisões são tão variadas quanto a capacidade humana de se ferrar. Enquanto um casal estabelece que um não deve saber o que o outro tá fazendo tem ali outro casal que se você não puxar a ficha criminal e o mapa astral da pessoa que vai sair para mostrar pro seu cônjuge é porque tá querendo esconder.
Já o relacionamento mono não precisa de muitos padrões e acordos, ele fica estabelecido por osmose. Já vem de fábrica como airbag. Você não precisa nem sequer ter namorado alguém para saber como um relacionamento mono funciona: está nos filmes, nos livros de banca, é um selo ISO9001 de pasteurização. Aí que mora o perigo.
As pessoas são diferentes umas das outras. Cada um com seus anseios e sonhos. Tentar encaixar todo mundo no balaio mono vai sempre gerar algum ruído, e é por isso que 9 entre 10 terapeutas comportamentais dizem que a base de todo relacionamento saudável é o diálogo. 1 entre 10 são só aqueles coaches de nada que ficam se gravando em casa como se estivessem num podcast.
Mas é o relacionamento mono em sua maioria que permitiu que inaugurássemos um novo estágio do capitalismo: LUCRAR com o chifre. Eu acho o máximo que cada estágio do capitalismo vai mudando de acordo com uma nova trombeta do apocalipse sendo tocada.
Não é muito incomum ascender para o panteão nacional das nanocelebridades pessoas que tem como título “Pivô da Separação”. A Mônica do Renan Calheiros, o Bombeiro da Luma… a posição de Pivô de Separação é muito mais bem servida que a outra posição de Pivô brasileira que tem que se contentar com Richarlison e Gabriel Jesus. Se os motivos de separação sempre lucraram algum capital e fama com as traições não é justo que ser corno também seja lucrativo?
No começo dos anos 2000 o Chico Buarque (o Chico Moedas retrô) andou pegando uma moça e levou pra praia, tomou um banho de mar com ela e coisa e tal. É o Chico Buarque, claro que alguém ia reconhecer o Chico Buarque e bater uma foto para descobrir quem era o “affair misterioso”. Era uma época no Rio que paparazzi faziam a “Ronda do Leblon” que consistia em andar na praia a procura de flagras para vender para o Ego ou a Caras. Pois bem, a moça era casada. O marido da moça era um músico e dono de estúdio, soltou umas farpas na imprensa (“Só quero que ele deixe nossa vida em paz, bote na balança que temos família e vá procurar alguém da idade dele. Talvez em uma clínica geriátrica”) e seu disco de repente ganhou resenhas nos diversos cadernos de cultura carioca. Um disco que passaria desapercebido, ou que pelo menos não receberia a atenção no volume que recebeu não fosse o caso. Se o programa “A Fazenda” existisse na época certamente ele seria um convidado.
Pensar que Shakira (a Sharika, bicho!) foi vítima de uma invasão de pote de geleia e o resultado disso é uma música de corno absurdamente agressiva que faturou uma boa grana sendo a mais ouvida DO MUNDO por uma semana. Dentro desse contexto a gente até entende a decisão da Luisa de fazer o que fez na frente de um delicioso prato de cuca gigante. Ser corno é um imenso imã de empatia. A dor de corno é um processo que ouso dizer a imensa parte da humanidade passou. É óbvio que a imensa parte passou porque também nós humanos chiframos muito, mas a gente se apega no que a gente sofre, não no que a gente causa, não é mesmo?
Ela fez isso porque sabia que daria certo. Tirando o Twitter que é o canto escuro das redes sociais que o Mufasa manda o Simba prometer nunca pisar lá no Instagram a comoção é geral. Chico Moedas o novo vilão da Disney e todos os blogs de fofoca (curiosamente agenciados no mesmo CNPJ da Luisa) já mostraram a força da Luisa de expor isso ao público. Ai de quem reclamar que ela está OVERSHARING, afinal, ela pode falar do que quiser com a vida dela!
A gente sabe que pode sim, só está questionando se precisava, mas enfim, é um tipo de questionamento que pode fazer um monte de blog com email Mynd apontar tochas e tridentes de capinagem para você, herege.
Tem nesse meio do caminho - além de uma suposta traição da Lexa e o Guimê ter ido de flow no ralo - o fim do casamento de Sandy e Lucas Lima. Com nota conjunta, com texto técnico, escrito ao invés de falado e a sobriedade necessária para que duas pessoas públicas que se relacionam possam comunicar ao público um fato relevante - inclusive com suspeitas de chifre - de suas vidas. “Separamos, a vida é nossa, temos filhos, flw vlw”. O fato da Sandy ter 40 anos e a Luisa 25 me faz refletir muito sobre como crescer já na era das redes sociais fez com que os artistas se sentissem obrigados a incluir sua vida pessoal em sua perfomance artística.
Os próximos passos a gente já sabe. Uma outra música-resposta à primeira, um clipe que exalte a superação do lance. Muitos plays no Spotify. A redenção em outro galã-mirim de aparência duvidosa e - aposta minha - com aura bem mais heterotop de academia do que esquerdomacho de bigode do anterior. Quem sabe o Rock in Rio, se já venceu no The Town. Basta um bom planejamento de carreira e evitar pedir um copo d’água para desconhecidos que Luisa poderá sair desse penhasco maior do que entrou.
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